Josué Mariano entrevista o cantor e compositor Oswaldo Montenegro

CAPA- OSWALDO

“Quando você está entusiasmado seja com uma paixão, com uma peça, com uma música, com um trabalho, com um sonho, com a vontade de mudar, o que quer que seja, você se cura!”, Oswaldo Montenegro.

 

Da redação

Nessa entrevista, o cantor e compositor Oswaldo Viveiros Montenegro (60) conversa de forma descontraída com Josué Mariano, sobre os mais diversos assuntos: Desde o início de sua formação literária até os fatos engraçados ao longo de sua carreira. Ele revela sua vontade de parar de fazer turnê, recita a primeira letra que compôs, conta como que é o processo de criação de uma música, confessa o seu medo, fala sobre solidão, crença e fé.
Muito mais do que uma entrevista, esse bate-papo mostra o lado filosófico do artista, e o deixa à vontade para externar seu amor pela família e relembrar do único sonho do cantor que ficou para trás.
Essa entrevista foi realizada no Crowne Plaza Hotel em São Paulo, no dia 29 de abril de 2002, e faz parte do arquivo pessoal do jornalista.

JOSUÉ ENTREVISTA OSWALDO MONTENEGRO - 900 X 600

Sala de estar Crowne Plaza Hotel

OSWALDO ENTREVISTADO - 900 X 600

Sala de estar Crowne Plaza Hotel

COM TANIA MAYA - 900 X 600

Sala de estar Crowne Plaza Hotel – à direita a cantora Tânia Maya com o livro explicação universal de Josué Mariano

FOTO - AUTOGRAFANDO

Autografando CD “A Lista”

Josué Mariano
Estamos aqui com o cantor e compositor Oswaldo Montenegro e vamos bater um papo sobre a sua vida e a sua obra.
Oswaldo é um prazer tê-lo aqui conosco.

Oswaldo Montenegro
O prazer meu.

JM
Oswaldo como que surgiu a música em você?

Oswaldo Montenegro
Eu acho que através da minha família. Eu venho de uma família muito musical. Meus dois avós, tanto de pai quanto de mãe, são músicos, não músicos profissionais! Mas músicos amadores… tocavam…piano. Meu pai minha mãe sempre tocaram violão, minha mãe pianista, meu pai tocava violão…todo mundo cantava em casa!… acho que vem daí.

JM
Você lembra qual a primeira música que você compôs?

Oswaldo Montenegro
Foi uma música chamada “Lenheiro”, pro rio da cidade de São João Del rey.

JM
Você tinha mais ou menos quantos anos?

Oswaldo Montenegro
Não me lembro. Mas foi logo que fui morar lá. Eu fui morar lá com oito… Aí comecei a sair com a turma do meu pai e da minha mãe, que fazia serenata… pegar um violãozinho… E numa dessas pegadas de violão eu fiz uma musiquinha lá bem simples pro rio Lenheiro.

JM
A letra, você lembra ainda ou não?

Oswaldo Montenegro
…Quando as águas do Lenheiro batem entre as pedras… É sinal de Minas Gerais. Minas do ouro, do ferro e do bronze… Meu coração não te esquecerá jamais.

JM
Eu tenho assim percebido em vários depoimentos seus…você sempre cita assim vários poetas, escritores. Como foi sua formação literária?

Oswaldo Montenegro
Olha… ela foi um pouco bagunçada menos organizada do que eu gostaria que tivesse sido. Mas foi muito heterogênea e muito ampla… Eu…eu tive um contato muito aberto no sentido de estilo assim… Eu fui morar em Brasília com 15 anos conhecer a família Prista Tavares, que me apresentou na Universidade de Brasília, embora eu tivesse 15 anos assim…eu ia assistir concertos, palestras… Comecei a me interessar. E a minha mãe é professora de literatura, então comecei a lê diversos estilos diferentes e tal, mas eu cito muito, cito muito assim…as frases que eu gosto, porque gosto de frases. Eu tenho muito mais apego aquelas frases que sintetizam um pensamento do que ao texto inteiro, ao poema inteiro. Eu não sou um leitor de poemas. Eu gosto muito daquela frase que você conta pra um amigo teu, olha que frase interessante… Eu gosto desse tipo de coisa, é quase como uma brincadeira pra mim, é quase como uma curtição.

JM
Você poderia assim… citar algumas frases de alguns escritores que marcaram… você durante esse início de literatura?

Oswaldo Montenegro
Olha… Primeiro me marcou muito… na infância me marcou muito a literatura Infantil do Monteiro Lobato. Eu fui… Bateu isso pra valer. Na adolescência me marcou muito, a… aquela coisa do Chico Buarque de falar…uma frase que é impossível que alguém não se toque. Quer dizer, de colocar uma frase poética sem os adornos poéticos, sem as frescuras poéticas, por exemplo: “Eu bato o portão sem fazer alarde, eu levo a carteira de identidade, uma saideira e muita saudade. E a leve impressão de que já vou tarde”. Essa crueza que tem no meio da sensibilidade do Chico me bateu também. Algumas frases de Drummond me batiam muito, como… A dor passa, mas não passa ter doído”. Alguma… a experiência linguística do Guimarães Rosa de inventar palavra, inventar maneira, que na verdade não era uma invenção. Era a maneira como o povo do interior, do interior, do interior de Minas naquele momento que ele viajou, falava!..me bateu também. A construção métrica de João Cabral de Melo Neto como uma coisa que ele João Cabral, chamava de frieza mas não tinha nada de frieza, mas de um poema bem construído. Me bateu também. Mas acima de tudo, na minha vida me bateram, os filósofos ácidos, cruéis, como Oscar Wilde, Millôr Fernandes, pessoas que olham a vida e não deixam margem pra pieguices. Eu sempre tive uma tendência meio sentimentaloide. Sempre fui um pouco hispanico assim… Um pouco ibérico, um pouco derramado demais. E essas pessoas cortaram essa minha tendência que era muito forte. Até no início da minha carreira, eu era excessivamente derramado.

JM
E atualmente, o que você está lendo ou tem lido?

Oswaldo Montenegro
Atualmente eu sou um consumidor voraz de TV a cabo… de uma maneira obcecada eu fico vendo 300 documentários, filmes, e não tá sobrando espaço pra nada que não seja isso. Porque eu tô unindo isso, com a falta de vontade que eu tenho às vezes de sair de casa. Eu só saio de casa para andar. Eu ando que nem um louco, volto, vejo televisão, TV a cabo, documentário, que nem um louco! E vou ao cinema constantemente, porque o que eu gosto mesmo é filme. Então, a literatura tá…um pouco encostada.

JM
Como que é a sua filosofia de vida na sua obra? Como você transpõe ou transpôs isso?

Oswaldo Montenegro
Eu não sei… (acende o cigarro)…

JM
O seu jeito de pensar… o jeito de se expressar para o grande público?…

Oswaldo Montenegro
Eu acho que no início, é uma vontade de impressionar. A gente quando é garoto assim… Eu queria fazer coisas bonitas pra alguém me achar legal. Eu acho que a gente começa por necessidade de aprovação. A gente faz música e canta pela imensa vontade que a gente tem que gostem da gente. Depois, eu diria que hoje… É a vontade de ser sincero. De ser honesto. De não mentir num poema. Eu não tenho necessidade de dar uma grande mensagem. Mas, desconfio que dentro disso também, haja escondida uma vontade de ser gostado; só que de uma maneira mais adulta. Acho que no fundo, no fundo… Eu também criei isso na minha cabeça, pela vontade que eu ainda tenho de ser gostado, mas que eu disfarço…dizendo que não… Eu quero é ser sincero e tal.

JM
Eu li o texto da palestra que você fez no Rio na sociedade teosófica, com o título a crença na dúvida. Eu perguntaria a você, crê na dúvida é o mesmo que aceitar os mistérios da vida?

Oswaldo Montenegro
É… É aceitar no sentido de que você os reverencia, e sabe que eles não são entendíveis à luz da lógica cartesiana. Significa você não ter uma atitude racionalista radical, no sentido de que você aceita que há coisas acima da nossa lógica, por exemplo, a compreensão do que existiria depois do fim, ou antes do início… É totalmente impossível para o nosso nível de raciocínio. Então é aceitar isso. Mas também é, não aceitar os dogmas religiosos. Quer dizer, eu não sei, eu creio na dúvida, creio que não sei, aceito que não sei, reverencio não saber, mas também não acho que ninguém saiba.

JM
Você acredita em Deus?

Oswaldo Montenegro
Pois é, não sei nem o que seria isso. Porque quando as pessoas falam de Deus como uma coisa assim: Deus é um cara legal, Deus é fiel, Deus é justo, elas estão personificando Deus. E a primeira coisa que qualquer religião faz, é dizer que Deus não deve ser personificado. Quer dizer, a ideia de Deus, é a ideia de Que Deus é tudo. Por isso, que tem na bíblia, “…no princípio era o verbo”. Quer dizer, o verbo ser, apenas era. O homem é que é legal, ou não é legal, é bacana, é bonito, Deus é! Então, o homem, na minha cabeça, ele passou a ter uma ideia de que há um Deus, lá em cima, criando, olhando, computando, e…acima de tudo e penalizando o homem, quando na verdade, ele é parte de Deus, ele é Deus, ele faz parte… Tudo isso junto, seria Deus. E não Deus seria um cara barbudo dando esporro em todo mundo lá de cima e tal.

JM
Como que é o seu ato de criar? Você já sonhou com uma letra, fazendo uma música, ou viu uma cena ou até mesmo conversando com alguém, bateu a ideia em você… Como que é esse ato de criação?

Oswaldo Montenegro
É muito variado né!… É muito variado, eu… O que eu procuro mesmo é não pensar, eu procuro muito quando vou criar não raciocinar… Uma última música que eu fiz pro show novo agora, uma espécie de uma…apresentação assim. Então, eu estava conversando com a Tânia, e vendo televisão e eu pedi, vamos continuar conversando, e continua com a televisão ligada. Para que meu consciente ficasse realmente atrapalhado mesmo pro meu inconsciente poder criar.

JM
Como que é o seu inconsciente e consciente nesse ato da criação?

Oswaldo Montenegro
O meu inconsciente é que funciona no ato da criação. O consciente só pode atrapalhar. O consciente quer fazer legal, quer fazer vaidoso, quer fazer bonito. E o inconsciente flui, e eu tô interessado na arte do que flui.

JM
Suas peças musicais… Como que é?

Oswaldo Montenegro
São algumas ideias que eu tive pra historias… Que eu coloco no palco sob o formato dos menestréis, quer dizer, dos contadores de história, fugindo do estilo da ópera; fugindo do estilo da opereta em que a ação dramática é cantada. Eu uso pra isso, muito!… A figura do narrador.

JM
Qual a peça que você fez que marcou assim… sua vida, sua carreira?

Oswaldo Montenegro
Eu não sei se posso chamar de peça. Eu diria que são shows ilustrados, assim… Eu acredito que seja a dança dos signos, aldeia dos ventos, noturno. Mas a que mais eu… gosto, e tenho no coração, e que eu nunca montei profissionalmente, é muito louco isso. Fiz o vídeo, fiz o disco e fiz o livro, é o Vale Encantado. E que eu pretendo fazer, mas eu tenho tanto carinho por esse negócio que eu tô demorando a fazer, mas é o que eu mais gosto.

JM
Qual o papel da sua família na sua vida?

Oswaldo Montenegro
Ah, é absoluto. Eu sou uma pessoa profundamente ligado à família. Eu…tava até comentando agora. Eu há 46 anos passo natal e ano novo com meu pai e minha mãe. Nunca não passei. Eu sou profundamente ligado a família, tanto a meu pai e minha mãe quanto a meu filho.

JM
Como que é a pessoa do Oswaldo Montenegro?

Oswaldo Montenegro
Não tenho a menor ideia.

JM
E o Oswaldo Montenegro pai, como que é?

Oswaldo Montenegro
Eu sou um pai bem… bem solto em todas as questões, com exceção da questão da segurança. Eu sou um cara meio psico com segurança. Então na… no lidar, por exemplo, com
a escola, com horário, eu sou bem… Flexível. E com a segurança eu sou meio apavorado.

JM
E com a sua agenda dá tempo pra ficar com seu filho, com seus pais, como você lida com isso?

Oswaldo Montenegro
Mal. Dá pouco tempo. Eu fico meio chateado com isso.

JM
Você espera que o seu filho também entre na música, e que assim o seu trabalho possa ser perpetuado?

Oswaldo Montenegro
Não!… De jeito nenhum. Primeiro porque eu não penso dele ser nada. Eu quero que ele seja o que ele quiser. Segundo, que perpetuado é uma palavra que não passa na minha cabeça. Eu acho a posteridade uma merda. Pra que eu quero a posteridade?… Eu quero o agora. Eu quero brincar de fazer música agora. Depois… Se daqui a duzentos anos, alguém vai ouvir minha música, sinceramente, eu não tô nem aí.

JM
Pra sua vida pessoal, o que a música, trouxe de bom e de ruim?

Oswaldo Montenegro
De bom, a chance de não trabalhar em nada chato. Eu não trabalho em nada chato, graças a Deus. Acho que… A vida das pessoas sendo ocupada 8 horas por dia por um trabalho que elas não gostam de fazer, é insuportável, e a música me livrou disso. E de ruim, me trouxe… Nada. De ruim nada, só trouxe coisa boa.

JM
Você se considera um artista vaidoso?

Oswaldo Montenegro
Eu me considero… Engraçado. Eu me considero um cantor humilde, e um compositor vaidoso. Eu já notei isso várias vezes. Eu nunca… Eu não tenho nenhuma exigência como cantor, nenhuma vontade, nenhuma…nada. Mas se alguém esquece de dizer que uma música minha, eu fico chateado. Eu tenho até vergonha disso, porque eu sou muito vaidoso assim como criador. Fico sempre querendo crédito. Se alguém ta cantando uma música minha quero crédito. E como cantor não, como cantor sou bem tranquilo, não tenho nenhuma vaidade assim, engraçado isso, a vaidade foi toda para o outro lado.

JM
Você tem liberdade pra fazer o que quer, sair, passear? Tem artista que muitas reclama do assédio dos fãs, que às vezes não dá pra fazer nada por conta disso. Isso incomoda você, de alguma forma?

Oswaldo Montenegro
Não.

JM
Como que é, você sai normalmente?

Oswaldo Montenegro
Bom, primeiro porque eu não sou uma pessoa de sair mesmo. Único lugar que o fã poderia me incomodar é no cinema ou andando de madrugada. Eu ando de madrugada que nem um maluco, quer dizer, não tem ninguém na rua. E no cinema nunca me incomodou. Acho que também o tipo de púbico que consome minha música, é um tipo muito educado… Eu nunca tive esse problema não.

JM
No cinema, qual filme que mais marcou, que você assistiu?

Oswaldo Montenegro
A trilogia do poderoso chefão, o sonho de liberdade… Amadeus, pô!… Um montão, tem vários filmes que eu gosto.

JM
Se você não fosse músico, o que seria?

Oswaldo Montenegro
Ah… Eu seria alguma coisa ligada a área humana. Como sociologia, psicologia… Talvez até tivesse no cinema de alguma maneira, dirigindo… Não sei, mas alguma coisa ligada a área humana ou artística.

JM
Você chegou a fazer faculdade?….

Oswaldo Montenegro
Fiz um ano de comunicação.

JM
Hoje, como você vê o papel do artista?

Oswaldo Montenegro
Olha, eu acho que o artista tem algumas contribuições que pode dar, assim como qualquer outra profissão tem. Então eu vou responder em relação ao artista porque você perguntou, mas não que eu ache que o artista tem uma contribuição a mais, do que outras profissões, eu não acho. Acho que tem como qualquer outra. No caso do artista eu acho que contribui para desarrumar as coisas. As coisas estão muito uniformizadas, muito… Muito industrializadas, muito iguais; todo mundo pensando, vestindo, andando e falando igual. O artista deveria ser aquele cara espontâneo que bagunça um pouco o pensamento uniformizado. Acho que tem também uma função bacana de escrever ou de cantar, ou de interpretar alguma coisa que o outro sentiu. Para que o outro não se sinta só. Quando ele canta, eu ontem estava me sentindo assim, e você também estava se sentindo assim… Aquilo te tira da solidão. Eu acho uma função importante.

JM
Atualmente, qual a música que melhor definiria o seu momento hoje?

Oswaldo Montenegro
A lista

JM
Pra você, o que é a solidão?

Oswaldo Montenegro
Olha… Pra mim… A solidão, o símbolo da solidão pra mim é quando eu tô numa turnê, o público vai embora, e eu chego no hotel brother… Isso pra mim é a imagem mais impressionante de solidão que eu conheço. Risos… Só vai saber do que tô falando quem já uma turnê. Quando você está na centésima cidade e chega no hotel e pensa que no dia seguinte tem que viajar pra caramba, você… Porque é engraçado, porque você… Ao mesmo tempo que você bota pra fora tua emoção, no show, você pega algumas emoções, e você não tem pra onde botar aquilo pra fora, é uma sensação… Que eu até gostaria de parar, eu penso rapidamente parar…rapaz, de… Parar mesmo com turnê um dia… Eu penso um dia parar. Porque a sensação é muito chata.

JM
Pra você, o que move e o que para o mundo?

Oswaldo Montenegro
O que move o mundo é o entusiasmo. E o que para o mundo é a inveja.

JM
Por quê?

Oswaldo Montenegro
Porque o entusiasmo, é a suprema…na minha opinião, forma de saúde. Quando você está entusiasmado seja com uma paixão, com uma peça, com uma música, com um trabalho, com um sonho, com a vontade de mudar, o que quer que seja, você… se cura! Você não fica gripado, é uma coisa impressionante o que o entusiasmo pode fazer, o entusiasmo pra mim… Ele move o mundo, como você falou. E a inveja seria a… A chateação que quem não está entusiasmado, tem por quem está. Seria… Ela para o mundo, porque ela tira a graça de quem tá entusiasmado. Ela pode… Se o entusiasmo tá movimentando o mundo, o freio seria a inveja, que a pessoa que tá entusiasmada, quando tá diante da inveja do outro, ela se paralisa, ela se sente quase que ridícula de ter sido tão entusiasmada, é uma pena.

JM
Você tem medo de quê?

Oswaldo Montenegro
Tenho medo da morte ou de doença das pessoas que eu amo.

JM
Definiria como assim?…

Oswaldo Montenegro
Porque pra mim a única coisa que importa na vida é o afeto. O resto não tenho medo nenhum, de nada. Mas não tenho mesmo assim… Não tem uma hora na minha vida que eu fico sobressaltados assim… Oh, será que… Eu nunca fiquei assim, será que eu vou um dia conseguir ser um artista, será que eu vou… Nunca tive. Eu só tenho medo, meu medo é afetivo. Só me importa o afeto.

JM
Tendo em vista que a MPB é muito rica, você não pensa em fazer um letras brasileiras volume 2?!

Oswaldo Montenegro
Penso.

JM
Que artistas você colocaria?

Oswaldo Montenegro
É difícil, porque é muito rico bicho… Realmente, isso é uma coisa que é impressionante, como tem gente… O que eu mais sonharia em fazer, seria um letras brasileiras inédito assim… Pegar… Isso é um sonho que eu quero falar com Roberto Menescal um dia. Pegar assim poetas do Brasil inteiro que mandassem música, gravar doze grandes poetas que nunca foram gravado. Isso seria um sonho pra mim.

JM
Qual o seu primeiro disco e o mais recente?

Oswaldo Montenegro
O mais recente é a lista… E o primeiro disco… Não sei.

JM
Não seria o poeta maldito moleque vadio?

Oswaldo Montenegro
Por gravadora foi o poeta maldito moleque vadio. Mas eu fiz um projeto vitrine, que o Sá e Guarabira me lançaram…no projeto vitrine através do Hermínio Belo de Carvalho… Tem esse disquinho que é um compacto, que é anterior a isso. Tem o Trilhas que foi um disco independente que a gente fez em 70 e pouco…que a gente vendia na porta… Quer dizer, de gravadora seria o poeta maldito moleque vadio.

JM
Como surgiu o só pra colecionadores, a coleção?

Oswaldo Montenegro
Surgiu da sensação que eu tenho, muito clara de que há um grande número de pessoas, que quer exatamente o que a indústria não quer. Então, por exemplo, aquele disco, do balé telas, que eu escrevi pro grupo camaleão de Belo Horizonte, a Elba falou, pô! Mas não tô estendendo. É um disco muito anti comercial, tem vários instrumentais.. Você canta uma, a Tânia canta outra… Aparece a voz da Estela…no meio, num vocaliza, aí tem uma música que é flauta com água… Se a indústria recusa, significa que aquele público que ama o que a indústria recusa, quer. Então é um público menor, mas muito mais garantido, porque é um público que opta, e a gente faz tiragens pequenas, de discos que não vão pra loja, não vão pra TV, não vão pra rádio. Estão só… A expressão da nossa gravadora, o título da gravadora, é exatamente a ideia. É só pra colecionadores… Então todo ano eu lanço um disco por uma gravadora, que tem distribuição, no caso é a lista, que é aquele primo rico né… que vende bastante… Bastante não! Mas vende 40, 50 mil. E o só pra colecionadores sai com uma tiragem de 1 e 3 mil. Entendeu… É um projeto muito mais, para público específico.

JM
Eu assisti a peça musical A Lista, realmente maravilhosa. Eu perguntaria a você, faça uma lista dos sonhos que tinha… Quantos você já deixou de sonhar?

Oswaldo Montenegro
Eu deixei de sonhar… (Pausa). Bom, eu deixei de sonhar um. Eu achava que… O grupo que chegou comigo no Rio: Eu, Mongol, Madalena Salles, José Alexandre, Raimundo Costa, Ulysses Manchado, estaríamos muito mais perto, atuando, na música brasileira. Eu… Venho… A minha geração foi muito sofrida. Ela teve uma dificuldade muito grande, é uma geração sanduíche assim, ela veio… Ela entrou nos anos 80, mas ela entrou e logo depois o rock brasil entrou, e entrou muito bem, muito saudáv el, muito bonito… E essa geração que era uma geração… Ela se dispersou, por diversas razões, sociológicas e tal. Então, eu imaginava, está mais junto dessas pessoas, tenho saudade dessas pessoas. Com exceção de Madalena que toca comigo.

JM
Conte pra gente um fato engraçado que aconteceu a você durante um show.

Oswaldo Montenegro
Eu tenho um milhão de fatos loucos que acontecem no show… Entendeu, eu tenho assim… Milhões de histórias assim… Impressionantes assim… Eu já peguei um bêbado no colo no show, no meio da apresentação do espetáculo musical Léo e Bia, eu peguei o bêbado no colo. Ele caiu lá de cima da plateia e desceu, e veio rolando e caiu no meu colo assim… Eu já… Eu já vi Madalena Salles dormindo num show em Manaus às 04:30 da manhã pra universitários… Que a gente vinha dois dias sem dormir. E ela apagou assim no piano. Eu já… Olha eu podia fazer um livro de fatos loucos que acontecem no show.

JM
Pra finalizar nossa entrevista, deixe aí sua mensagem para os fãs seus de todo o Brasil.

Oswaldo Montenegro
Só posso agradecer a atenção que me tem dado, e dizer a vocês que… Sugerir, pedir que procurem saber através da nossa página, os lançamentos do só pra colecionadores, porque os discos que eu lanço pela gravadora, provavelmente chegam nas lojas, e o só pra colecionadores só através da nossa página, que vai tá sempre informando coisas ali.

JM
Valeu Oswaldo, foi um prazer enorme ter a sua participação aqui em nosso programa.

Oswaldo Montenegro
O prazer foi meu, valeu.



Jornalista - MTB 10997-DF/ Radialista - DRT-DF 6416 Poeta, escritor, autor do livro de poesias "Explicação Universal" lançado pela editora Scortecci.


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